Introdução
A laparoscopia consiste no exame da cavidade peritoneal a partir da
visualização de seus órgãos por intermédio de um instrumento óptico
introduzido através da parede abdominal.
O primeiro relato de utilização desse método data de 1901, quando Kelling
empregou um cristoscópio para visualizar a cavidade abdominal de cães.
Denominou o procedimento de celioscopia. Entretanto, somente durante a Segunda
Guerra Mundial o método foi empregado como exame auxiliar diagnóstico no
abdome agudo.
Em 1956, Lanny e Sarles relataram a primeira publicação na literatura sobre
a utilização da laparoscopia no trauma, apresentando dois casos de rotura do
baço diagnosticadas pelo método. Dessa publicação em diante verificamos
vários trabalhos mostrando as qualidades diagnósticas da laparoscopia em
pacientes com suspeita clínica de comprometimento visceral intraperitoneal
agudo, traumático ou não.
Assim, são candidatos à laparoscopia diagnóstica todos os doentes que,
inicialmente submetidos à avaliação clínica, permaneçam com quadro
abdominal duvidoso quanto à presença de comprometimento visceral
intra-abdominal após a realização dos exames clínico e laboratorial
pertinentes de entrada.
O equipamento de vídeo-laparoscopia consiste em um monitor de alta
resolução, fonte de luz, aparelho de vídeo-câmera, insuflador de CO2, agulha
de Verres, sistema óptico, trocartes de tamanhos diversos e pinças variadas
que auxiliam no inventário da cavidade abdominal e na realização de alguns
procedimentos.
O exame deve ser realizados no centro cirúrgico, sob anestesia geral,
monitoração cardíaca contínua e a sondagem nasogástrica e vesical são
obrigatórias. Após anti-sepsia adequada, é feita incisão de pele e
subcutâneo com bisturi, através da qual é ntroduzida agulha de Verres, na
cavidade abdominal, conectada a um insuflador de CO2 para realização de
pneumoperitônio. A pressão intra-abdominal não deve ultrapassar15 mm. de
mercúrio, a fim de evitar complicações respiratórias e hemodinâmicas. A
seguir, a agulha é substituída por um trocarte de 10 mm. para a introdução
da óptica através do mesmo, iniciando-se o inventário da cavidade abdominal.
O exame laparoscópico deve obedecer uma seqüência para que toda a cavidade
abdominal seja devidamente avaliada. Assim, inicialmente, aborda-se o andar
supramesocólico, examinando-se o fígado, o baço, o diafragma, os ligamentos
redondo e falciforme hepáticos, assim como o perotônio parietal da região e a
parede anterior do estômago. A seguir, examina-se as goteiras parietocólicas
direita e esquerda, procurando se evidenciar não só a presença de líquidos
mas possíveis afecções dos segmentos cólicos e apêndice. Em seguida
inspeciona-se o colo transverso e, manuseando-se o palpador, inspeciona-se o
intestino delgado, dentro das limitações próprias do método. Em pacientes do
sexo feminino passa-se, então, ao exame dos órgãos genitais internos.
A experiência com a vídeo-laparoscopia na cirurgia do trauma é
inscipiente. No entanto, há grande potencial para sua aplicabilidade. A
laparoscopia pode ser utilizada como método diagnóstico no trauma abdominal,
tanto nos ferimentos penetrantes quanto no trauma fechado. As condições para
sua utilização incluem a estabilidade hemodinâmica do paciente e a
existência de uma equipe treinada e disponível. Ela permite a visualização
de penetração da cavidade, avaliação do grau de hemoperitônio, evitando
laparotomias desnecessárias e possibilitando até a realização de
procedimentos. (Quadro 1).
Diagnóstico de Penetração da Cavidade
·Diagnóstico precoce de lesões
·Avaliação do grau de hemoperitônio
·Evitar diagnóstico tardio
·Diminuir a incidência de laparotomias não
terapêuticas
·Possibilitar tratamento conservador em casos
selecionados
No trauma abdominal fechado o retardo diagnóstico de lesões ocorre muitas
vezes em função da existência de lesões associadas, como TCE com
rebaixamento dos níveis de consciência, as quais dificultam a avaliação
abdominal. Mesmo os doentes conscientes e sem repercussão hemodinâmica, podem
ser portadores de pequenas lesões de órgãos parenquimatosos, os quais não
são diagnosticados por exames de imagem e acabam manifestando-se tardiamente,
na vigência de complicações.
A vídeo-laparoscopia contribui para o diagnóstico preciso de lesões no
trauma fechado através da avaliação quantitativa do hemoperitônio,
aspiração do sangue, visualização do diafragma na sua totalidade, além de
permitir a visualização do fígado e superfície retroperitoneal através da
mobilização dos cólons direito e esquerdo (Quadro 2). A dificuldade outrora
existente na visualização do baço com a laparoscopia convencional, é hoje
eliminada através do acesso aos órgãos pelas pinças auxiliares, que permitem
também “correr” alças intestinais.
continuação