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Trauma em Gestantes (1ª parte)

última atualização: 05/04/00 

  

 

Introdução

A importância do estudo do trauma em gestante consiste no fato da incidência de traumatismos durante este período vir aumentando nos últimos anos, devido a crescente participação da mulher na sociedade atual, inclusive quando gestante, o que torna mais exposta a atropelamentos, acidentes automobilísticos atos de violência ou qualquer outro tipo de trauma.

O trauma apareceu como causa mais imporante de morte de etiologia não obstétrica na gestante (cerca de 22%). Apresenta uma incidência em torno de 6 a 7% e a mortalidade fetal apresenta valores ao redor de 70%.

Mais da metade dos acidentes ocorrem no último trimestre, já que neste período devido a um útero muito volumoso, a mulher perde parte de sua agilidade física e tem seu julgamento frente a situações de perigo afetado pela sobrecarga psicológica decorrente da ansiedade existente na fase final da gestação.

Todo médico que atende a uma gestante traumatizada deve ter conhecimento das alterações anatomo-fisiológicas da gestante que podem influenciar o diagnóstico e a conduta terapêutica e também lembrar-se que, na verdade está atendendo dois pacientes; onde a principal causa de lesão do feto é a alteração da homeostase materna. Mesmo que não ocorra lesões diretas sobre o feto, as alterações da homeostase materna como hipóxia e hipotensão, causam vários danos ao concepto e por isso, deve-se priorizar a sobrevida materna.


Alterações Morfológicas e Funcionais da Gravidez

Estas modificações ocorrem naturalmente durante a gravidez e são necessárias para o desenvolvimento do concepto e para preparar a mãe para o parturição. Contudo, se não forem bem conhecidas pelo médico, podem ser cofundidas com situações patológicas, levarem a interpretações errôneas dos dados diagnósticos e a condutas terapêuticas inapropiadas.

Alterações Morfológicas

Até a 12ª semana de gestação o útero é intrapelvico, estando bem protegido pela pelve, a partir de então passa a ser abdominal, alcançando a cicatriz umbilical em torno da 20ª semana. A partir desta, a altura do fundo uterino passa a corresponder a idade do feto em semanas. Na 36ª semana o útero atinge sua altura máxima supra-umbilical no rebordo costal. Nas últimas semanas de gravidez o feto desce lentamente e seu segmento cefálico se encaixa na pelve.

No primeiro trimestre da gravidez o útero se encontra protegido pelos ossos da bacia e a espessura de suas paredes está aumentada. No segundo trimestre o útero deixa de ser protegido pela pelve, passando a ser abdominal, porém o feto é protegido por grande quantidade de líquido aminiótico. No terceiro trimestre o útero atinge as suas maiores dimensões, as suas paredes tornan-se mais adelgaçadas e a quantidade de líquido aminiótico diminui ficando, então o feto mais suceptível ao trauma, neste período.

Com relação a placenta, sabe-se que esta atinge o seu tamanho máximo entre a 36ª e a 38ª semanas e que as sua quantidade de fibras elásticas é pequena, o que predispõe a falta de adesividade entre a placenta e a parede uterina, induzindo a complicações como o descolamento de placenta. A placenta apresenta vasos muito dilatados e sensíveis a estimulação por catecolaminas.

O feto é considerado viável a partir da 28ª semana e é considerado prematuro quando tiver menos de 2,5 Kg.

Quanto maior for o útero maior é a probabilidade de sofrer ferimentos, porém a probabilidade de lesões associadas diminui, pois o útero funciona como uma barreira protetora aos órgãos abdominais.

Alterações Cardiovasculares

Um fato importante a ser conhecido é o da influência postural materna sobre seu sistema circulatório. Em posição supina, o útero volumoso comprime a veia cava inferior, reduzindo o retorno venoso alterando as condições hemodinâmicas e aumentando a pressão venosa no sistema venoso dos membros inferiores e das veias ilíacas.

Durante a gravidez o débito cardíaco encontra-se aumentado, podendo atingir até 6L/min. Porém em posição supina o débito pode estar diminuído cerca de 30 a 40%. Portanto é importante, sempre que possível, fazer com que a gestante traumatizada adote a posição de decúbito lateral. Quando esta não for possível, deve-se desviar o útero gravido para a esquerda, através de manobras manuais ou de inclinação lateral de leito.

A freqüencia cardíaca encontra-se aumentada cerca de 15 a 20 batimentos por minuto a mais que na mulher não grávida.

A pressão arterial cai, principalmente, nos dois primeiros trimestres sofrendo uma elevação no final da gestação, porém não atingindo os níveis pré-gravídicos. A pressão sistólica pode sofrer uma queda de 5 mmHg e a pressão diastólica uma queda de 15 mmHg.

Níveis de pressão diastólica superiores a 75 mmHg no segundo trimestre e 85 mmHg no terceiro trimestre são consideradas anormais (Lindheimer e cols, 1980).

Algumas mulheres podem apresentar a síndrome hipotensiva supina, apresentando profunda hipotensão. Esta situação é resolvida colocando-se a paciente decúbito lateral esquerdo.

A pressão venosa central diminui com o evoluir da gestação, principalmente quando a paciente se encontra em decúbito dorsal horizontal. Nos últimos meses de gestação a PVC pode chegar a 3,8 cmH²O na posição lateral esquerda.

Quanto as alterações eletrocardiográficas o eixo QRS pode estar desviado para esquerda em cerca de 15°. As ondas T podem se encontrar achatadas e até invertidas. As extra-sístoles supraventriculares são freqüentes.

Alterações Sangüíneas

O volume plasmático apresenta-se elevado, podendo chegar a um aumento de 50% na 34ª semana de gestação. Concomitantemente, ocorre um aumento do volume eritrocitário, em torno de 30%; porém este aumento é pequeno em relação ao aumento do volume plasmático e isto leva a uma diminuição do hematócrito, que pode apresentar valores entre 31 e 35%. Esta diminuição do hematócrito caracteriza a anemia fisiológica da gravidez.

Devido a esta hipervolemia (aumento da volemia em aproximadamente 48% do volume plasmático), a gestante pode perder até 1/3 da volemia, sem exibir os sintomas de hipovolemia.

A albumina sérica cai durante a gravidez para valores entre 2,2 e 2,8 g/100mL, isso leva a uma queda da pressão coloidosmótica.

Ocorre um aumento do número de leucócitos, que pode chegar a valores próximos de 20.000 leucócitos por mm³. O conhecimento deste dado é importante para que não se confunda a leucocitose da gravidez com a leucocitose causada por um quadro infeccioso ou pela rotura de um órgão parenquimatoso abdominal.

Os fatores de coagulação estão aumentados principalmente o fibrinogênio e os fatores VII, VIII, IX, X. Isto não acarreta na prática uma maior incidência de trombose venosa profunda e nem uma modificação das indicações de anticoagulação profilática. Na existência de sinais de coagulação intravascular disseminada, deve-se levar em conta a possibilidade de embolização por líquido amniótico.

Alterações Respiratórias

O volume corrente e volume minuto aumentam consideravelmente, levando a um estado de hiperventilação pulmonar, com uma pCO² em torno de 30mmHg que leva a uma alcalose respiratória, onde o pH varia pouco devido a um declínio de bicarbonato sérico.

As mulheres grávidas resistem pouco a períodos de apnéia, pois tem a sua capacidade residual funcional diminuida por abaixamento limitado do diafragma devido ao crescimento uterino.

Em condições de grave hipotensão e de hipóxia o fluxo sangüineo uterino pode cair mais de 50%, devido a um aumento da resistência vascular do útero, que é maior do que o aumento verificado na resistência sistêmica, e que é causado pelo aumento do tônus uterino ou pela liberação local de catecolaminas. Isto faz com que o feto entre em sofrimento com hipóxia tecidual e acidose progressiva.

Alterações Gastrointestinais

Na gravidez a motilidade do trato gastrointestinal está diminuida, com um tempo de esvaziamento gástrico prolongado. Por isso, para efeito prático, deve-se sempre considerar que o estômago da gestante traumatizada está cheio. Desta forma, para evitar aspiração do conteúdo gástrico, deve-se instalar uma sonda nasogástrica.

Alterações Urinárias

As vias urinárias se encontram dilatadas a partir do 1º trimestre. A filtração glomerular e o fluxo plasmático renal se encontram aumentados na gravidez e os níveis de uréia e creatinina caem à metade dos valores anteriores à gestação.

Alterações Endócrinas

A hipófise sofre um aumento de 30 a 50%, o que a torna dependente de um maior fluxo sangüineo. Desta forma, um choque hipovolêmico durante a gestação pode determinar a necrose isquêmica da hipófise anterior (Síndrome de Sheehan).

Alterações Músculo-Esqueléticas

O alargamento da sínfise púbica e o aumento dos espaços das articulações sacroilíacas devem ser considerados ao interpretar as radiografias da bacia.

 

continuação

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