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Introdução
A equipe que atende a um politraumatizado deve ter dois tipos de lesões em
mente. O primeiro tipo são aquelas facilmente identificáveis ao exame físico,
permitindo tratamento precoce. Já o segundo tipo de lesões são aquelas ditas
potenciais, ou seja, não são óbvias ao exame mas podem estar presentes pelo
mecanismo de trauma sofrido pelo paciente. Dependendo do grau de suspeita destas
lesões pela equipe, danos menos aparentes podem passar desapercebidos, sendo
tratadas tardiamente.
Deste modo, ressalta-se a importância de se conhecer a história do
acidente. Quando bem acurada e interpretada pela equipe, tem-se a suspeita de
mais de 90% das lesões antes de ter contato direto com o paciente.
A história no trauma divide-se em três fases:
· Pré-impacto: são os eventos que precedem o acidente, tais como
ingestão de álcool e ou drogas, condições de saúde do paciente (doenças
preexistentes), idade, etc. Estes dados terão influência significativa no
resultado final.
· Impacto: deve constar o tipo de evento traumático (ex. colisão
automobilística, atropelamento, queda, ferimento penetrante, etc.). Deve-se
também estimar a quantidade de energia trocada (ex. velocidade do veículo,
altura da queda, calibre da arma, etc.).
· Pós-impacto: ela se inicia após o paciente ter absorvido a
energia do impacto. As informações coletadas nas fases de pré-impacto e
impacto são utilizadas para conduzir as ações pré-hospitalares na fase de
pós-impacto. A ameaça à vida pode ser rápida ou lenta, dependendo em parte
das ações tomadas nesta fase pela equipe de resgate.
Portanto, as informações colhidas pelas equipes a respeito dos danos
externos e internos do veículo constituem-se em pistas para as lesões sofridas
pelos seus ocupantes. Com isto, a identificação das lesões ocultas ou de
diagnóstico mais difícil são facilitadas, permitindo tratamento mais precoce
reduzindo-se a morbi-mortalidade dos pacientes. Algumas observações são muito
comuns, tais como: deformidades do volante de direção, sugerindo trauma
torácico, quebra com abaulamento circular do pára-brisas indicando o impacto
da cabeça, o que sugere lesão cervical e craniana, deformidades baixas do
painel de instrumentos sugerindo luxação do joelho, quadril ou fratura de
fêmur.
Energia e Leis Físicas
A fim de entender e interpretar as informações obtidas na história, faz-se
necessário considerar algumas leis físicas:
Um corpo em movimento ou em repouso, tende a ficar neste estado até que uma
energia externa atue sobre ele (1ª Lei de Newton).
A energia nunca é criada ou destruída, mas sim, pode mudar de forma. As
formas mais comuns são mecânica, térmica, elétrica e química.
A energia cinética é igual a massa multiplicada pelo quadrado da velocidade
, dividido por dois. Com isso, a velocidade é mais importante fator gerador de
energia cinética do que a massa, ou seja a energia trocada em uma colisão em
alta velocidade é muito maior do que uma em baixa velocidade. Já a diferença
da massa dos ocupantes do veículo pouco interfere na energia de colisão.
Uma força é igual ao produto da massa pela sua aceleração (ou
desaceleração).
Outro fator a se considerar numa colisão é a distância de parada.
Antes da colisão, o veículo e o ocupante viajam numa mesma velocidade. Durante
o impacto, ambos sofrem uma brusca desaceleração, até pararem. Portanto,
aumentos da distância de parada, diminuem a força de desaceleração sobre o
veículo e seus ocupantes. A compressibilidade do material exerce influência na
distância de parada e consequentemente na força de desaceleração. Ao ocorrer
a compressão do material, há um aumento na distância de parada, absorvendo
parte da energia, impedindo que o corpo absorva toda a energia, diminuindo as
lesões no mesmo. Isto pode ser exemplificado quando se compara a colisão
contra um muro de concreto e uma barreira de neve.
Cavitação
Defini-se como o deslocamento violento dos tecidos do corpo humano para longe
do local do impacto, devido à transmissão de energia. Este rápido movimento
de fuga dos tecidos a partir da região do impacto, leva a uma lesão por
compressão tecidual e também à distância, pela expansão da cavidade e
estiramento dos tecidos.
Este fenômeno gera dois tipos de cavidades (ou deformações). As cavidades
temporárias são formadas no momento do impacto, sendo que os tecidos
retornam a sua posição prévia após o impacto. Este tipo de cavidade não é
visto pela equipe de resgate e nem pelo médico ao exame físico. O outro tipo
de cavidade é denominado permanente. Elas são causadas pelo impacto e
compressão dos tecidos e podem ser vistas após o trauma. A diferença básica
entre os dois tipos de cavidades é a elasticidade dos tecidos
envolvidos. Por exemplo, um chute no abdome pode deformar profundamente a parede
sem deixar marcas visíveis, pois após o golpe, a parede volta à sua posição
original, gerando-se somente uma cavidade temporária. Já quando um motoqueiro
choca sua cabeça contra um obstáculo, gera-se múltiplas fraturas de crânio,
não permitindo o retorno dos ossos às suas posições originais (afundamento
de crânio). Isto forma uma cavidade permanente que é facilmente identificável
ao exame.
Permutas de energia
Ela depende de vários fatores, tais como:
· Densidade: quanto maior a densidade do tecido, maior será o
número de partículas que se chocará com o objeto em movimento, levando uma
maior permuta de energia entre eles.
· Área de superfície: similarmente o que ocorre com a densidade,
quanto maior a área de contato entre os tecidos e o objeto em movimento, maior
será o número de partículas envolvidas e consequentemente maior a permuta de
energia.
Esta área pode ser constante durante o impacto ou pode sofrer deformações,
alterando com isto permuta de energia. Um projétil de arma de fogo, por
exemplo, ao atravessar os tecidos, vai sendo deformado, aumentando sua área e
consequentemente a permuta de energia no decorrer do seu trajeto. As munições
“Dum Dum” se expandem violentamente ao se chocarem com a pele, causando
lesões internas mais extensas. Este tipo de munição expandível foi proibido
em conflitos militares (Tratado de Petersburg 1899 e Convenção de Geneva). A
área também pode variar pelo rolamento do projétil ao atravessar os tecidos
(rotação transversal). O projétil penetra na pele com sua menor área, mas ao
atravessar os tecidos, sofre desvios no eixo transversal que aumentam sua área
e consequentemente a permuta de energia. Esta atinge seu máximo quando o
projétil está a 90º (corresponde a maior área). Este fenômeno denominado “tumble”
(cambalhota) ocorre pela mudança do centro de gravidade do projétil ao
atravessar os tecidos. Outro fenômeno que pode ocorrer é a fragmentação
do projétil. Quando isto ocorre, ele se espalha numa maior área, causando
maior lesão nos órgãos internos, pela maior permuta de energia.
O conhecimento da ocorrência de permuta de energia e de suas variáveis pela
equipe de resgate, tem grande importância prática. Isto pode ser evidenciado
quando se compara duas equipes que atendem um motorista que se chocou
violentamente contra o volante. A que conhece cinemática do trauma, mesmo não
reconhecendo lesões externas, saberá que ocorreu uma cavitação temporária e
uma grande desaceleração suspeitando de lesões de órgãos intratorácicos.
Com isso, a conduta será mais agressiva, minimizando a morbi-mortalidade dos
pacientes. Já a que não tem estes conhecimentos, não suspeitará de lesões
de órgãos intra-torácicos, retardando o diagnóstico e conduta das mesmas,
influenciando diretamente na sobrevida dos pacientes.
continuação
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