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Choque (1ª parte)

última atualização: 05/04/00 

  

 

Introdução

Nos dias atuais, o trauma consisti na principal causa de morte nas primeiras quatro décadas de vida, e nos outros grupos etários está atrás somente do Câncer e da Aterosclerose; e tão elevada quanto a taxa de mortalidade é a taxa de morbidade, a invalidez por trauma excede a mortalidade na proporção de 3:1.

Na tentativa de diminuir estes dados, desenvolveu-se uma abordagem para avaliação e tratamento dos pacientes vítimas de politrauma, trata-se do ABCDE do trauma. Este método de avaliação e de tratamento (ABCDE) foi concebido a partir da constatação de que o risco de vida no trauma tem uma cronologia previsível, ou seja, detectou-se que a obstrução das vias aéreas é o quê mata mais rapidamente, seguida em segundo lugar da privação da capacidade de respirar, e em terceiro lugar da perda de volume sangüíneo circulante.

E é da perda de volume sangüíneo circulante, chamada de Choque Hipovolêmico, e também das outras formas de choque, que se trata o capítulo a seguir.


Definição e Reconhecimento

Choque é a perfusão e oxigenação inadequadas dos órgãos e tecidos.

O passo inicial na abordagem do choque é reconhecer sua presença, seu diagnóstico é feito exclusivamente através do exame físico, que deve ser dirigido aos sinais vitais, ou seja, à freqüência cardíaca, freqüência respiratória, perfusão cutânea e pressão do pulso; nenhum teste laboratorial identifica imediatamente o choque. A determinação do hematócrito ou da concentração de hemoglobina por exemplo, não diagnostica perdas sangüíneas agudamente.

O Choque Hemorrágico corresponde a 90% de todos os estados de choque, nesta situação, a reação fisiológica do organismo é a liberação de catecolaminas, portanto, a taquicardia e a vasoconstição cutânea são os sinais mais precoces do choque, por isso, todo paciente politraumatizado que está pálido ou frio e taquicárdico está em choque, até que se prove o contrário.

É importante salientar que a medida da pressão arterial não é um bom sinal para o diagnóstico do choque, pois os mecanismos compensatórios, que corresponde a descarga adrenérgica, mantém a pressão sistólica até uma perda de 30% da volemia.

Deve-se considerar que os parâmetros de taquicardia são diferentes para cada fase da vida:

Infância: 160 sístoles/minuto

Criança: 140 sístoles/minuto

Puberdade: 120 sístoles/minuto

Adulto: 100 sístoles/minuto

O segundo passo na abordagem do choque é identificar sua provável etiologia, ou seja, identificar o tipo de choque; se é devido a perda de sangue apresentando componente de hipovolemia, chamado de Choque Hemorrágico, ou se é devido a causas não hemorrágicas como o Choque Cardiogênico, Choque Neurogênico ou Choque Séptico.


Choque Cardiogênico

Trata-se de perfusão e oxigenação inadequadas dos órgãos e tecidos, graças à falência da bomba cardíaca por uma disfunção miocárdica.

A disfunção miocárdica ocorre por Contusão Miocárdica, por Embolia Gasosa, por Tamponamento Cardíaco, ou mais raramente por Infarto Agudo do Miocárdio associado ao trauma.


Contusão Miocárdica

Para o diagnóstico de Contusão Miocárdica, um dado importante é obtido pela história do trauma, ou seja, pelo mecanismo de lesão. Deve-se desconfiar de contusão miocárdica em trauma fechado de tórax com desaceleração brusca, esta lesão ocorre pela compressão do coração entre o esterno e a coluna.

Todo doente com trauma fechado de tórax necessita de monitorização eletrocardiográfica contínua, para determinar a presença de extrassístoles, bloqueio de ramo, ou dissociação eletromecânica. Dissociação eletromecânica é uma situação na qual existe traçado eletrocardiográfico mas o paciente apresenta-se sem pressão de pulso.

A disfunção miocárdica leva a diminuição da Pressão Arterial apresentando todo quadro clínico do choque com: aumento da freqüência cardíaca e respiratória, palidez e diminuição da diurese.Essa disfunçao, dependendo de sua gravidade pode levar a um comprometimento da função cardíaca e consequente redução importante do débito.

O tratamento da contusão miocárdica baseia-se no repouso e monitorização cardíaca em UTI.


Tamponamento Cardíaco

Em casos de trauma por ferimento penetrante de tórax, deve-se lembrar de Tamponamento Cardíaco, trata-se de uma lesão com rotura da musculatura cardíaca levando à saída de sangue do interior de uma das câmaras cardíacas para o pericárdio, deste modo, o aumento de volume sangüíneo no pericárdio restringe a capacidade de dilatação do Ventrículo Direito na diástole, prejudicando o seu enchimento. Assim, existe uma diminuição do Volume Sistólico e consequentemente há diminuição do Débito Cardíaco, estabelecendo-se desta maneira o quadro de choque com diminuição da Pressão Arterial, aumento da Pressão Venosa Central e abafamento das bulhas cardíacas, estes três elementos caracterizam a tríade de Beck.

O paciente também pode apresentar estase jugular e pulso paradoxal. que é um achado clínico onde a pressão do pulso diminui na inspiração. Normalmente, a pressão de pulso aumenta na inspiração.

O tratamento do Tamponamento Cardíaco é a pericardiocentese, consisti de uma drenagem do pericárdio realizada com uma longa agulha introduzida na região subxifoidea com o auxílio de uma derivação do ECG.


Pneumotórax Hipertensivo

É uma lesão grave que deve ser tratada prontamente, assim que diagnosticada.

Mais comum em trauma fechado de tórax, o Pneumotórax Hipertensivo aparece quando se forma um mecanismo valvular, ou seja, na inspiração existe entrada de ar para o espaço pleural mas na expiração a lesão se fecha, de tal sorte, que o ar persiste no espaço pleural. Desta maneira, a cada movimento respiratório a pressão intrapleural aumenta progressivamente, de tal modo, que o pulmão ipse-lateral se colaba e o coração e o mediastino são empurrados para o lado contra lateral.

A fisiopatologia deste tipo de choque é explicada da seguinte maneira: quando o mediastino é empurrado para o lado contra-lateral ao Pneumotórax, ocorre o pinçamento dos vasos da base do coração (Veias Cavas Inferior e Superior), e além disto, existe um aumento significativo da pressão intrapleural, estas duas situações diminuem significativamente o Retorno Venoso, apresentando então, um importante sinal clínico, a Estase Jugular. Com a diminuição do Retorno Venoso, o Débito Cardíaco diminui estabelecendo-se assim o estado de choque.

Um outro fator que agrava ainda mais esta situação é o desvio da traquéia, isto ocorre, porque o mediastino quando é empurrado para o lado contra-lateral ao Pneumotórax, leva consigo a traquéia. O desvio da traquéia leva a uma hipoventilação com hipóxia tecidual, isto somado a má perfusão dos tecidos é uma situação de morte iminente.

O diagnóstico de Pneumotórax Hipertensivo é dado pela diminuição do murmúrio vesicular e pelo som hiper timpânico do lado do Pneumotórax, estase jugular, face pletórica e pulso paradoxal. O Raio-x de tórax apresenta uma área radiotransparente, mostrando o pulmão todo colabado do lado da lesão; mas pela gravidade do quadro, o Raio-x está contra-indicado, pois não existe tempo hábil para sua realização.

O tratamento do Pneumotórax Hipertensivo deve ser instituído prontamente a realização do diagnóstico, e se processa, em caráter de emergência, com introdução de uma agulha grossa (#14 ou #16) no 2º espaço intercostal ipse-lateral a lesão, na linha hemiclavicular, seguindo de uma drenagem pleural em selo d’água no 5° ou 6° espaço intercostal na linha axilar média, esta em caráter de urgência.

O Choque Cardiogênico, por vezes, é de difícil diferenciação do Choque Hemorrágico nos pacientes politraumatizados, isto ocorre naquelas situações em que além da contusão miocárdica existe também uma hemorragia associada, nestes quadros os principais sinais de choque estarão presentes mas a estase jugular estará ausente e só aparecerá após a reposição volêmica adequada, apontando então para o diagnóstico de disfunção miocárdica.


Choque Neurogênico

Esse tipo de choque é decorrente de uma lesão medular, esta lesão leva a perda do tônus simpático, ou seja, interrompe-se o estímulo vasomotor ocasionando uma intensa vasodilatação periférica e desta maneira, o sangue se distribui preenchendo um maior continente venoso. Subseqüentemente, registra-se uma diminuição do Retorno Venoso com conseqüente queda do Débito Cardíaco.

A compensação, pela descarga adrenérgica a partir das regiões inervadas do organismo e pela liberação de angiotensina e vasopressina, não é suficiente para restaurar o Débito Cardíaco a níveis normais.

Os sinais marcantes são: hipotensão com bradicardia, além da pele rosada e bem perfundida nas áreas denervadas.

É importante salientar que as lesões cranianas isoladas (TCE) não causam choque por não causarem lesões medulares..

O paciente com diagnóstico ou suspeita de choque neurogênico deve ser tratado inicialmente como se estivesse hipovolêmico, isto é, com reposição de líquidos, seja cristalóides ou colóides. Caso não ocorra uma resposta favorável, uma droga vasocostritora poderá ser utilizada, com o intuito de aumentar o tônus vascular. A posição de Trendelenburg ( a cabeça do paciente se encontra numa altura mais baixa que os pés) pode ser utilizada como terapêutica coadjuvante em casos de hipotensão.

 

continuação

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